Domingo, Janeiro 10, 2010

Diálogos pueris XXVI

Ele: Ficas assim só porque de repente reaparece uma pessoa que fez parte da tua vida no passado?
Ela: Assim como? Feliz?
Ele: Feliz não, histérica!
Ela: Não estou histérica, estou feliz.
Ele: Seja, feliz. Nunca enterras as tuas histórias, pois não?
Ela: Nunca.
Ele: Mas parece que nunca deixas de gostar...
Ela: Claro, e nunca deixo.
Ele: Não entendo.
Ela: O que é que não entendes?
Ele: Não entendo quando percebo que, eventualmente, me compararás facilmente com outros a qualquer momento, bastando para isso que o rapazito de Nova Iorque passe do outro lado da rua.
Ela: Mas isso é ridículo, eu não fiz comparação nenhuma. Gostar muito de alguém não significa passar a gostar menos dos outros.
Ele: Se uma mulher me fizesse isso, se eu sentisse que uma mulher, a minha mulher, sentisse vontade, uma imensurável vontade, uma amantizada vontade de atravessar a rua para ir ter com outro, podes ter a certeza que desapareceria de ambos os passeios.
Ela: [gargalhada] Estás a distorcer. Quem é que falou numa amantizada vontade?! Eu gosto de todas as pessoas que tive. Vou gostar sempre. Devia odiá-las?! Porquê, se não me fizeram mal nenhum?!
Ele: Romântica essa tua ideia, sem dúvida! É um bocadinho como o comunismo, coisa bonita, somos todos iguais e trá lá lá, cantando e rindo, mas depois vai-se a ver, e uns trabalham mais que os outros e talvez por isso uns devessem ganhar mais do que os outros, não?
Ela: Tu queres que eu desvirtue as pessoas, que as substime, que apague uma parte da minha vida só para provar que agora é que é a sério e importante. E isso eu não faço. Nunca fiz; nunca farei.
Ele: A tua ideia é comunista, o teu amor é vermelho, é marxista-leninista, é de foice, todos os teus amores - dizes - devem ser por igual. Não dás mais atenção, mais salário a nenhum deles. É tudo por igual! Mas há uns que trabalham mais, que fazem mais por ti, que te dão mais. E tu não queres saber, estás a dizer que são todos iguais!
Ela: Não estou a dizer que são todos iguais! Estou a dizer que são todos importantes!
Ele: E eu estou a dizer que isso, sendo romântico, é impossível!!!
Ela: O quê? Guardar as pessoas? Gostar de estar com elas?

Ele: Sim, dessa forma, não! Devias arrumá-las bem num canto do sótão, ok, não as tirando de lá se não quiseres, mas percebendo que aquilo é um quadro bonito que te faz se calhar sorrir quando olhas para lá, mas que está agora inerte, fixo, imutável.
Ela: Belo, vamos apagando o caminho, não é? Matando pessoas? Olhas para trás e vês um cemitério de afectos. É isso?
Ele: És palerma, mimalha, bipolar!

Segunda-feira, Junho 30, 2008

Diálogos pueris XXV

Ele: Estou farto! Farto de nunca estar satisfeito com nada!
Ela: É verdade, nunca estás.
Ele: E depois magoo as pessoas à minha volta.
Ela: É verdade. Assim, vais acabar sozinho.
Ele: Não vou nada!
Ela: Daqui a uns anos falamos.
Ele: Se ficar é porque mereci.
Ela: E se não ficares era o que merecias.
Ele: Não julgues que me vou defender. Estou a tentar mudar, a tentar fazer as coisas certas. E se te consola um bocadinho, estou a sofrer.
Ela: Não sou eu tenho que tenho de ser consolada.
Ele: Ainda vou a tempo de fazer as coisas bem. Foi o que tentei fazer desta última vez.
Ela: O que é que fizeste de diferente?
Ele: Libertei-a.
Ela: Tu não a libertaste! Tu deixaste-a. Fizeste o que fazes sempre.
Ele: Mentira! Libertei-a porque gosto mesmo dela! Não achas isso importante?
Ela: Achava importante olhar para ti e perceber que aprendeste a amar alguém.
Ele: Se Deus quiser, ela há-de ter uma vida extraordinária.
Ela: Porra! Pára de falar como se fosses pai dela! Se Deus quiser o quê? Ela não é tua filha!
Ele: Sim, mas não sejas tão apressada a fazer tantas críticas!
Ela: Se tens uma mulher de 40 queres uma de 20, se tens uma de 20 queres uma de 50, se tens uma médica queres uma de fora da profissão, se trabalha fora queres uma da área, se é portuguesa queres uma russa, se é russa queres uma de Marte!
Ele: Não sabes a nossa história toda. E nem eu te vou contar!
Ela: SEMPRE FOSTE ASSIM!
Ele: Ok. Mereço isso.
Ela: E não interessa a última história. Eu não te conheci ontem. Nem é a primeira vez que te ouço dizer que estás a morrer de amor... e depois, que acabaste, mas que esperas que ela seja muito feliz porque é uma mulher extraordinária!
Ele: Pois é. Às vezes, preciso ouvir essas coisas. Mas estas coisas do coração são complicadas. Não penses que não me conheço!
Ela: Eu sei. O que só piora. Quer dizer que não tens vontade de ser melhor.
Ele: Obrigada.
Ela: Desculpa.
Ele: Compreendo a tua ira.
Ela: Desculpa. Não tenho nada a ver com isso.
Ele: Tens. E sabes que tens.
Ela: Não tenho. E sei que não tenho. Mas gostava tanto de te ver feliz...
Ele: Eu sei. Por isso é que tens o direito de me dizer coisas duras.
Ela: Se pudesses fazer as coisas certas, seria perfeito.
Ele: Eu sei. E gostava de fazer as coisas certas ao menos uma vez na vida. Tentei agora e acho que falhei escandalosamente.
Ela: Não digas "gostava tanto de..." como se isso não dependesse de ti.
Ele: Eu sei.
Ela: E pára de dizer "eu sei". Sabes quantas histórias dessas tuas eu já ouvi?
Ele: Não sei.
Ela: Parece que tens 15 anos, que não podes ver nada, que ainda estás na fase de provar lá no recreio da escola que consegues ter as meninas todas! É ridículo! Vais começar a parecer ridículo!Ele: Eu sei. Porque é que achas que estou a tentar parar?
Ela: Por causa do ego.
Ele: Por causa do ego?!
Ela: Sim. Mentiste-lhe sempre sobre a tua idade, por exemplo. Sabes que a tua namorada ou ex-namorada ou lá o que é, vai ser feliz. Hoje ou amanhã ou depois, não importa quando. E sabes que todas as pessoas com quem andaste acabam por encontrar a sua felicidade, cedo ou tarde. Só tu continuas a saltar, como se tivesses 15 anos. E depois, consolas-te - é outra das tuas fases cíclicas - nas tuas amigas divorciadas.
Ele: Mau, agora já estás a abusar! Nunca andei com nenhuma das minhas amigas divorciadas! Fiz infeliz uma mulher solteira, que ainda amo. Mais nada!
Ela: Desde que eu te conheço que tu me dizes que o amor não existe, que a fidelidade não existe!!!! Quem não acredita nisso nunca vai fazer ninguém feliz!
Ele: O amor existe, é bom e dá esperança. Mas não acredito na fidelidade, que queres que faça?
Ela: Nada. E tu queres o quê? Que te alivie a consciência?
Ele: Não. Aliás, é óbvio que estás a gostar de me condenar.
Ela: Queres que eu diga que és bonzinho, que não tens culpa, que magoas toda a gente que se cruza contigo, mas que é sempre sem querer?
Ele: Eu mereço isso. Mereço ser castigado. Mas estou a ser sincero quando te digo que não está a ser fácil.
Ela: Acredito em ti. Mas isso serve a quem?
Ele: Nã sei. Acho que tenho medo da intimidade. Do para sempre. Magoeei muita gente, é verdade. Mas também já fui magoado. Eu sei que a probabilidade de ficar sozinho é enorme.
Ela: Desculpa ter dito isso. Não vais nada ficar sozinho.
Ele: Não, não, tens razão. Mas não perdi a esperança. Não quero ser publicamente ridículo. E estou a sê-lo contigo.
Ela: O ridículo não está naquilo que me dizes a mim; está naquilo que às vezes fazes. Para mim nunca és ridículo.
Ele: Provavelmente, pode ser.
Ela: Mas estás a mentir. Não tens medo da intimidade, nem do para sempre. Tens só medo de uma coisa que nunca vais conseguir cumprir: que é teres todas as mulheres do planeta!
Ele: Estás a exagerar outra vez!
Ela: Não estou. Tu precisas de ser sempre o sedutor, o predador!
Ele: Ok, tens razão em quase tudo.
Ela: Porque é que ter razão não me deixa propriamente feliz?
Ele: Porque me adoras (risos)!
Ela: Porque gosto muito de ti, sim (risos)!

Sábado, Abril 28, 2007

Diálogos pueris XXIV

Ele: Estou tão arrependido...
Ela: Agora?!
Ele: Percebi que não deixei de gostar dela; tinha só esquecido que gostava. Achas isto possível, não propriamente esquecer uma pessoa, mas o que se sente por ela?
Ela: Acho tudo possível...
Ele: Disse-lhe que quero voltar para casa.
Ela: E ela?
Ele: Diz que tem medo. Medo que eu volte a ir embora...
Ela: Que garantia lhe dás de que isso não volta a acontecer?
Ele: É a mãe do meu filho.
Ela: Já era quando saíste de casa...
Ele: Mas agora é diferente. Quando o bebé nasceu assustei-me. Não estava preparado.
Ela: E achas que ela também não estava?!
Ele: Pois, eu sei. Fui um cabrão!
Ela: Quanto tempo passaste sem ver o miúdo?
Ele: Quase um ano. Mas agora existe uma química incrível entre nós. Ele conhece-me. E é como eu.
Ela: Um ano é muito tempo...
Ele: Não é assim tanto se pensarmos nos anos todos que ainda restam....
Ela: Sim, é uma perspectiva. Mas então, e agora?
Ele: Agora, ela tem que ser uma mulher a sério.
Ela: Ela ainda não decidiu se quer que voltes para casa e já estás a impor condições? O que é isso de ser uma mulher a sério?
Ele: É parar de seduzir os meus amigos e os dela; é deixar de entregar o filho à avó para poder sair à noite; é deixar de se vestir como se tivesse 15 anos; é cultivar-se; é parar de se relacionar com pessoas que não lhe ensinam nada e que só a adulam porque não podem ser como ela...
Ela: Uau! Isso tudo? Gostas de exactamente o quê nela?
Ele: Boa pergunta. Não sei. Mas sei que gosto.

Sábado, Março 24, 2007

Diálogos pueris XXIII

Ele: Preciso de um vibrador...
Ela: Precisas mais de um calmante...
Ele: Também. Preciso dos dois.
Ela: Porquê? O que te inquieta?
Ele: Pá, inquieta-me o facto de estar farto de ser fiel.
Ela: Desculpa?!
Ele: Ou melhor, inquieta-me o facto de querer sentir outras coisas...
Ela: Mas tu já disseste que é possível ser fiel e sentir outras coisas ao mesmo tempo...
Ele: Pá, já não sei o que digo...
Ela: Então???
Ele: Já não sei o que é ter outra mulher há séculos!!!
Ela: Não é suposto ser assim?!
Ele: Não, não é. Pelo menos comigo não deve ser, se chego a esta fase a precisar tanto de, desculpa a franqueza, foder...
Ela: E porque é que não fazes nada?
Ele: Fazer o quê?
Ela: Foder! Não é isso que queres?
Ele: Com quem???
Ela: Porra, sei lá! Isso tu é que tens que saber!!!! Não é suposto teres vontade de o fazer com uma pessoa concreta? Que exista? Que te tenha despertado a vontade de o fazer?
Ele: Ya, mais do que uma até...
Ela: Mas...
Ele: Mas, feliz ou infelizmente, isto não é propriamente um supermercado...
Ela: Confessa lá: a verdade é que, neste momento, não há ninguém que te dê a volta à cabeça.
Ele: Não, neste momento não há ninguém que me dê a volta à cabeça. Nem sequer a minha mulher.

Sexta-feira, Março 23, 2007

Diálogos pueris XXII

Ele: Porque é que achas que deixei de estar com ela?
Ela: Nunca soube...
Ele: É simples: traiu-me.
Ela: ...
Ele: Não faças essa cara! Eu sei que não estás propriamente espantada.
Ela: Não faças perguntas às quais não posso responder.
Ele: Sempre soube das histórias todas... dentro de mim! Achas que andava a dormir?
Ela: Não sei.
Ele: Tantos anos depois e estas coisas só me dão vontade de rir...
Ela: Estás a mentir.
Ele: Não estou a mentir. Dão-me vontade de rir, embora sejam tristes, obviamente. Nunca mais fui o mesmo. Nunca mais fui o mesmo com ninguém.
Ela: Tu gostavas mesmo dela, não era?
Ele: Não! Não gostava mesmo dela. Aquilo não era gostar; era ser burro e ter paciência de jó!
Ela: Se não tivesses gostado mesmo dela não tinhas mudado assim tanto, não é?
Ele: Claro que gostava dela! Quando gosto, gosto a sério. Claro que não tinha mudado tanto!
Ela: Isso parece que ainda te dói...
Ele: Dói-me que ela tenha sido burra. Que nunca tenha percebido que a entrega incondicional e a dedicação fiel são das coisas mais bonitas que podem existir.
Ela: Quem está a pagar a factura dessa mudança?
Ele: Eu. Quem havia de ser?

Diálogos pueris XXI

Ela: Como está a tua vida?
Ele: Com a minha namorada?
Ela: Sim.
Ele: Há dias melhores do que outros. Há fases mais agradáveis. E outras em que ambos sentimos que o fim pode ser uma hipótese. Falamos muito, isso ajuda.
Ela: Mas essa hipótese é real?
Ele: Não sei. Ela ainda tem um caminho longo a percorrer dentro dela.
Ela: Já não a imagino sem ti.
Ele: O último Verão foi muito difícil. Estivemos por um fio. Depois as coisas melhoraram.
Ela: Ela deu um salto contigo.
Ele: Pois, mas eu não sou responsável por isso. Ela é.
Ela: Também és.
Ele: Sim, talvez em parte. Mas o que é nuclear para ela ainda tem que ser esculpido. Temos muitas diferenças que nos separam. Mas sim, ela tem um je ne sais quoi que a torna especial.
Ela: Ela é absolutamente especial.
Ele: Não somos todos?!... As relações são sempre uma fonte de dúvidas e incertezas. Às vezes acho que os estilos de vida modernos não favorecem relações mais longas do que o "one night stand".
Ela: Tenho dúvidas sobre isso.
Ele: Também não tenho certezas. E nós insistimos em tentar mostrar que é possível. Mas perguntaste isso por algum presentimento particular?
Ela: Senti-vos de forma diferente.
Ele: Diferente como?
Ela: Não sei bem... como se tivesse deixado de haver um para passar a haver ser dois...
Ele: Tenho incentivado um pouco isso.
Ela: Sim, também senti que isso vinha sobretudo de ti.
Ele: Não é um incentivo no sentido de nos distanciarmos, sabes? É mais no sentido de eu ter a certeza que ela tem vida, pensamentos e amizades para além de mim e da nossa relação.
Ela: Está a funcionar?
Ele: Como uma espécie de ventilação, acho que sim.
Ela: Conversaram sobre isso?
Ele: Claro. E acho que ela acabou por entender facilmente. Isto aconteceu apenas para ela não se fechar numa única forma de ver e para se sentir livre de explorar o mundo e a própria vida dela.
Ela: Isso não é um bocadinho pedagógico-paternalista demais?
Ele: Não. Acho que assim me amará melhor.

Quinta-feira, Março 22, 2007

Diálogos pueris XX

Ele: Gostava de ter estado mais tempo contigo. Sozinho contigo, digo.
Ela: Pois...
Ele: Aliás, tenho pensado numa carta para ti, mas não sei se alguma vez a vou escrever.
Ela: Então?
Ele: São apenas ideias sobre o que vou pensando de ti.
Ela: Que tens pensado?
Ele: No que conheço de ti... Gostei de estar contigo, apesar de tudo.
Ela: Mas não falaste muito...
Ele: Não. Mas achei graça... vives num mundo tão distante...
Ela: Do teu?
Ele: Sim. As histórias, os assuntos, os personagens, que não são os meus...
Ela: Nada será assim tão diferente...
Ele: A sério que é... Estava a provar o teu mundo e a achar um piadão. Aliás, foi essa perspectiva que me deixou a pensar. A ideia que construí de ti é mesmo contrastante...
Ela: Contrastante?!
Ele: Sim. É difícil explicar e até pode ser que seja fruto da minha imaginação "améliana", mas fiquei com a sensação de que és um personagem demasiado sensível...
Ela: No meio dos outros?
Ele: Sim. Do tipo: como se sente uma rosa entre os espinhos que a embrulham?
Ela: Essa foi a ideia que ganhaste ou a que perdeste?
Ele: Não, não... foi com essa ideia com que saí de lá... Não faz sentido nenhum, pois não?
Ela: Não sei bem...
Ele: Reparei em pequenas coisas que podem não fazer sentido, mas...
Ela: Por exemplo?
Ele: Lembrei-me daquela vez em que tomámos café no meio de um trabalho teu. Já foi há algum tempo e também não é importante. Mas nesse dia reparei que enquanto falavas o teu maxilar ganhava tensão. E acho que foi a primeira vez que reparei nisso.
Ela: Sim, lembro-me dessa tarde...
Ele: Na semana passada pareceu-me que essa tensão estava lá outra vez.
Ela: É possível.
Ele: Curiosamente, senti o maxilar livre quando falavas do que tinhas sentido...
Ela: É verdade, essa tensão existe volta e meia. E deve realmente notar-se, porque não és a primeira pessoa a dizer isso...
Ele: A minha imaginação disse-me automaticamente que és mais livre quando falas dos sentimentos... Mas os espinhos logo mostraram que existem e tu recolheste-te... Foi aí que surgiu a tensão. Mas achei-te muito bonita.
Ela: Para ti, as outras pessoas são espinhos?
Ele: Não sou eu que as vejo assim. Para ti, algumas pessoas é que parecem funcionar como espinhos. Não digo que o sejam sempre. Aliás, talvez não sejam elas os espinhos. Apenas, talvez, sejas tu a flor: delicada, perfumada, atraente. E bonita, como estava a dizer.
Ela: Isso é muita imaginação. Mas sim, às vezes sinto-me dessintonizada. Como se me tivesse enganado no apeadeiro. Tinha idealizado um feito de coisas mais simples. Achava eu, pelo menos. Ele: Percebo bem o que estás a dizer. Mas nem sempre o hábito faz o monge. E não te sinto escrava do que não queres. Precisamente, por seres mais do que isso.
Ela: Queres que me sente no divã?
Ele: Quero saber o que te apetece...

Segunda-feira, Fevereiro 26, 2007

Diálogos Pueris XVIII

Ele: A minha veia poética voltou. Tinha que te avisar. Adeus, Wookie.
Ela: Estás apaixonado?
Ele: Sim.
Ela: Fico contente!
Ele: Hoje voltei a sentir... Estou feliz, finalmente!
Ela: Quer dizer que já podemos ser amigos?
Ele: Não. Ainda não.

Quinta-feira, Janeiro 11, 2007

Diálogos pueris XVII

Ele: Estou cansado de mentir, sabes?
Ela: Porque é que mentes?
Ele: Para conseguir ter espaço para mim.
Ela: Espaço físico? Para estar sozinho? Ou com outra pessoa?
Ele: Espaço mental. Às outras pessoas, às outras mulheres, tenho tentado resistir.
Ela: Tens vontade de não resistir?
Ele: Às vezes. E tenho pensado cada vez mais nisso.
Ela: Na traição?
Ele: Não. Na durabilidade do amor...
Ela: ... do qual tu serás um belo exemplo...
Ele: Um exemplo, mas não propriamente belo.
Ela: Porque não?
Ele: Olho à minha volta e todos os meus amigos se separaram, menos eu.
Ela: Achas que és o único a estar errado?
Ele: Acho que sou o único sem coragem.
Ela: Mas porque havias de terminar uma relação onde existe amor?
Ele: Para quê mantê-la se já não existe aquele ardor?
Ela: Acreditas em relações onde esse ardor dura até ao fim da vida?
Ele: Não. Mas sei que não consigo ser feliz sem esse permanente estado de excitação.
Ela: Há outras coisas que só se ganham com o tempo. A cumplicidade, por exemplo.
Ele: O tempo?! Que tempo?! Achas que o amor é para ser conservado?! Nós não somos um museu!

Quinta-feira, Janeiro 04, 2007

Diálogos pueris XVI

Ele: Estou sozinho outra vez.
Ela: Tens um problema com as mulheres!
Ele: Elas é que têm um problema comigo! Nenhuma me aguenta mais de seis meses!
Ela: É mais a tua ausência que elas não aguentam, não é?
Ele: É. É sempre assim: apaixono-me, começo a namorar, está tudo bem. Mas depois, passado alguns dias, tenho que ir embora. Já as aviso e tudo.
Ela: Avisas de quê?
Ele: Para não namorarem comigo; que eu passo muito tempo fora; que elas vão sofrer e eu, depois, também.
Ela: E elas dizem sempre que não faz mal, que são diferentes das outras...
Ele: (risos) ... que não vão chorar, que não vão fazer cenas de ciúmes se eu não ligar todos os dias, que vão esperar por mim...
Ela: E depois?
Ele: Depois, se chego cansado e não quero logo sair, acabam tudo...
Ela: Porque não gostas o suficiente...
Ele: E porque não tenho suficientes saudades...
Ela: Foi isso que voltou a acontecer?
Ele: Claro! É sempre assim. Já estou vacinado.
Ela: Não pareces vacinado.
Ele: Porque tentei fazer tudo de forma diferente desta vez e o resultado foi o mesmo.
Ela: Fizeste o quê?
Ele: Coisas que nunca fiz na vida! Marquei a passagem-de-ano em Paris, onde estão não sei quantos graus negativos e eu odeio frio. Marquei hotel, aluguei um carro...
Ela: Como as pessoas ditas normais...
Ele: Como as pessoas ditas normais. Mas ela...
Ela: Mas ela...
Ele: Mas ela acabou tudo na mesma!
Ela: Porquê?
Ele: Porque não telefonei nem respondi às mensagens quando cheguei.
Ela: Achas que foi só por isso?
Ele: Acho que as mulheres não aguentam relações à distância.
Ela: Já não vais a Paris?
Ele: Não. Mas só porque está frio. (risos)
Ela: E tu não gostas de frio...
Ele: É melhor pensar assim, não é?

Segunda-feira, Novembro 20, 2006

Diálogos pueris XIV

Ele: Conheci o gajo que anda com ela.
Ela: E então?
Ele: É psicólogo!
Ela: Mas falaste com ele?
Ele: Claro! Começou logo a falar da infância...
Ela: (risos)
Ele: Mandei-o logo parar!
Ela: Que simpático! (risos)
Ele: Claro! Disse-lhe que conhecia bem os truques da psicologia e que se ele queria que eu falasse da minha infância eu podia falar sem ter que ficar a ouvir a dele!
Ela: E falaste?
Ele: Achas?!
Ela: Então, falaram de quê?
Ele: Perguntei-lhe qual é o denominador comum das relações dele...
Ela: E ele?
Ele: Ficou a olhar para mim.
Ela: E?
Ele: Topei-o logo! Dei a resposta por ele.
Ela: Qual é a resposta?
Ele: Disse-lhe que ele se fartava depressa das pessoas.
Ela: Ele concordou?
Ele: Claro.
Ela: É o clássico da mistura entre o lado profissional e o pessoal?
Ele: Completamente!
Ela: Quando deixa de ter uma pessoa para salvar perde o interesse?
Ele: Exactamente!
Ela: O que quer dizer que não acreditas na relação deles...
Ele: Não.
Ela: E isso deixa-te feliz?
Ele: Obviamente.

Diálogos pueris XIII

Ele: Há quanto tempo comecei a contar-te histórias de mulheres umas a seguir às outras?
Ela: Hmmm, não sei.
Ele: Há dois anos, mais ou menos, não foi?
Ela: Não sei, a sério. Mas sim, houve uma altura em que não eras assim. Ou, pelo menos, não contavas...
Ele: Eu não era assim! Por que achas mudei?
Ela: Não faço a mais pequena ideia.
Ele: Mudei há dois anos quando descobri que ela andava com três gajos ao mesmo tempo. Comigo, quatro. Sei que não é desculpa, mas nunca mais ficas igual...
Ela: Ficas como?
Ele: Como tu vês. Nem foi a traição que me mudou - sou relativamente tolerante em relação a isso. Foi a mentira. Não suporto a mentira!
Ela: Que mentira?
Ele: Quando, por mero acaso, descobri tudo, ela pediu desculpa, chorou, disse que não voltava a acontecer. Três meses depois percebi que estava tudo igual. E ela a insistir que não!!!
Ela: Podias ter acabado nessa altura...
Ele: Pois podia...
Ela: Mas não acabaste...
Ele: Pois não...
Ela: Porquê?
Ele: Não sei. Mas acho que foi nessa altura que perdemos o respeito um pelo outro. Deixámos de nos conseguir ver por dentro, de nos valorizarmos. Ambos dormíamos com outras pessoas, ambos sabíamos... e nenhum dizia nada...
Ela: Até que ela se cansou disso...
Ele: Sim...
Ela: Se calhar, ainda vais agradecer ela ter acabado...
Ele: Já estou a agradecer. Agora quero assentar. Quero casar e ter filhos, sabes?
Ela: Não.
Ele: Não?!
Ela: Queres casar e ter filhos com quem?
Ele: Ainda não sei. Estou tão carente que tenho medo de me prender à primeira mulher que me der atenção... mas é mesmo isso que eu quero...
Ela: Tu?! E achas que vais conseguir?
Ele: Claro!
Ela: Um amor exclusivo e para sempre?
Ele: Sim. Seduzir é bom, fortalece o meu ADN físico. Mas agora estou só interessado no ADN da alma.

Diálogos pueris XII

Ela: Achas que a maior parte das pessoas vive a vida pela metade?
Ele: Estás a falar só de relações-a-dois?
Ela: Sim.
Ele: Mas isso é óbvio, não é?
Ela: Não sei... não...
Ele: Porra! Há anos que me fazes essa pergunta e há anos que te dou a mesma resposta! Não!!! Não há relações perfeitas! Não há contos de fadas! Não há ninguém que se encaixe completamente no nosso ideal! Não há dias inteiros felizes! Nem semanas, nem meses...
Ela: Mas tu disseste que estavas apaixonado...
Ele: E estou. E daí?
Ela: E isso não te faz ver as coisas de outra forma?
Ele: Estás a perguntar se vou deixar de paquerar outras mulheres?
Ela: Sim... isso também...
Ele: Não percebo! Juro que não percebo! Tu continuas a mesma palerma de sempre!
Ela: Vá, olha o insulto!...
Ele: Ó pá, a sério! Não vou deixar de dormir com outras mulheres porque isso não existe, entendes?!
Ela: Não...
Ele: Não existe, porra! O que existe é uma de duas opções: ou te entendes sexualmente em casa e procuras cumplicidade intelectual fora de casa ou o contrário. E o contrário é bem mais fácil de conseguir. E mais habitual!
Ela: É isso que tu fazes?
Ele: Tu sabes que sim...
Ela: E consegues ser feliz assim?
Ele: É a felicidade possível. Não há outra. Para ninguém. A monogamia não existe!
Ela: O que acabaste de dizer é...
Ele: ... É horrível, eu sei! Para a tua cabecinha é horrível. Mas quantas pessoas ambos conhecemos, por exemplo, que vão às putas ou que têm necessidade de foder, pelo menos uma vez por semana, com travestis?
Ela: Ninguém! Eu não conheço ninguém.
Ele: Isso é o que tu pensas! Conheces muitas mais pessoas do que julgas!
Ela: Estás doido!
Ele: As pessoas nunca contam o lado mais obscuro da sua vida. E acredita que toda a gente tem um.
Ela: O que prevalece sempre para lá disso tudo?
Ele: No meu caso?
Ela: Sim.
Ele: As minhas filhas.

Quinta-feira, Novembro 09, 2006

Diálogos pueris XI

Ele: Não vais acreditar!!!
Ela: Em quê?
Ele: Estou na merda!!!
Ela: Sim, isso já vi. Mas porquê?!
Ele: Acreditas que fiz 100 quilómetros de propósito só para lhe dizer que troquei tudo por ela e ela disse que agora já não quer???
Ela: Já não quer o quê?
Ele: Namorar comigo, claro!
Ela: (risos) Quantas vezes já lhe disseste isso?
Ele: Mas desta vez é diferente. Não estás a entender! Disse aos meus pais e tudo...
Ela: (risos) Aos teus pais?! É bonito. Há quantos anos é que isso dura?
Ele: Há cinco, acho eu...
Ela: Ela nunca te pediu para oficializarem a relação, pois não?
Ele: Não. Mas toda a gente sabe que ela é maluca por mim! A minha mãe está sempre a dizer isso... Passou-se! Só pode!...
Ela: Se calhar quer só mudar de vida. Tu sabes que este ano é importante para ela.
Ele: Foda-se! Também para mim!
Ela: Mas ela sempre esteve só contigo; tu estiveste com ela e com mais quantas?
Ele: Sim, mas ela sabia! Traí as minhas namoradas todas com ela. Acabei com todas por causa dela!
Ela: Foste acabando com uma e começando com outra. Nunca namoraste realmente com ela.
Ele: Ia namorar agora e ela não quer! Achas normal?
Ela: O que é que ela te disse?
Ele: Já não sei. Perdi a cabeça.
Ela: Ui, perdeste a cabeça?!
Ele: Perdi.
Ela: Porquê?
Ele: Porque acho que ela está mesmo a falar a sério.
Ela: Se calhar demoraste muito tempo... Cinco anos é muito tempo...
Ele: Logo agora, já viste?
Ela: "Logo agora" porquê?
Ele: Fui hoje do médico...
Ela: E então?
Ele: Disse-me que já não estou doente.
Ela: Acabou a quimioterapia?
Ele: Pelos vistos...
Ela: Mas isso é uma boa notícia!!!
Ele: Que se foda a boa notícia!
Ela: Não brinques!
Ele: A sério! Preferia continuar doente. Pelo menos, sabia que ela não ia embora...
Ela: Querias que ela estivesse contigo só por estares doente?
Ele: Não. Mas eu só andava com as outras por causa disso...
Ela: Por estares doente?!
Ele: Porque achava que tinha que viver tudo depressa. Porque achava que não ia ficar curado. E não queria que ela ficasse presa a uma pessoa que ia morrer...
Ela: Disseste-lhe isso?
Ele: Disse. É a verdade.
Ela: E ela?
Ele: Disse que sempre me tinha dito que eu ia ficar bom.

Quinta-feira, Novembro 02, 2006

Diálogos pueris X

Ele: Ela perguntou-me se eu já tinha visto um arco-íris duplo...
Ela: E tu?
Ele: Respondi-lhe que sim: quando estou com os copos. E de manhã, depois de noites longas.
Ela: E ela?
Ele: Disse-me que os arco-íris duplos existem. Que tinha acabado de ver um. E que não estava com os copos.
Ela: Ficaram por aí?
Ele: Disse-lhe para deixarmos a precisão da incerteza vingar.
Ela: O que é que isso quer dizer?
Ele: Sei lá. Os jogos linguísticos divertem-me, mas preservo sempre uma confortável margem de segurança. Não faço qualquer tipo de colagem ao real.
Ela: Achas que ela está apaixonada por ti?
Ele: Não. É demasiado esperta para isso.
Ela: As pessoas espertas não se apaixonam?
Ele: Apaixonam, mas depois sabem recentrar o olhar ou assobiar para o lado.
Ela: E se ela estivesse apaixonada?
Ele: O desfecho teria sido outro.
Ela: Qual teria sido?
Ele: Teria imperado o silêncio.
Ela: Alguma vez saíste com ela?
Ele: Não.
Ela: Porquê?
Ele: Porque a minha mulher teria sabido antes de eu chegar a casa.
Ela: És muito controlado?
Ele: Dead serious!